Baderna eleitoral nos EUA

Transição turbulenta incitada por Trump antevê longas batalhas jurídicas e rede gigantesca de advogados contratada por republicanos para contestar o resultado. Presidente americano, Donald Trump, e o ex-vice-presidente Joe Biden durante o primeiro debate presidencial nesta terça-feira (29), em Cleveland, Ohio Patrick Semansky/AP Diante de 70 milhões de espectadores que dedicaram 90 minutos de seu tempo na ilusão de que assistiriam a um debate eleitoral construtivo, o presidente Donald Trump voltou a atacar a lisura das eleições americanas. Sinalizou que uma transição pacífica só ocorrerá se ele sair vitorioso em novembro e incitou seus partidários a questionarem o processo. Nesta campanha que rompeu com padrões de civilidade, as denúncias de fraude eleitoral partem do próprio presidente dos EUA. Ao contrário de Biden, Trump se negou a comprometer-se a aceitar o resultado eleitoral. Em comícios e entrevistas, ele deslegitima, sem apresentar evidências, a votação por correio — instrumento que se fortaleceu numa eleição duramente afetada pela pandemia do novo coronavírus. Para amparar as denúncias que o presidente faz repetidamente, a campanha republicana começou a montar, há um ano, uma rede gigantesca de advogados para dar conta das batalhas jurídicas que se avizinham no day after eleitoral para contestar a apuração. Uma reportagem publicada esta semana pelo site Politico detalha como funcionará este mutirão, com apoio do Comitê Nacional Republicano, que se concentrará basicamente em 17 estados que estão no foco do presidente. Ambos os partidos se preparam para estender o resultado por dias ou semanas, num imbróglio que fará os americanos sentirem saudades da eleição disputada por George W. Bush e Al Gore, em 2000, que se arrastou por 35 dias. No desastre que se transformou o primeiro debate eleitoral entre os dois candidatos à Casa Branca, o democrata Joe Biden tentou reverter o roteiro caótico estabelecido por Trump. Encorajou eleitores a comparecerem às urnas, em vez de dar crédito às denúncias infundadas proferidas pelo presidente de que os votos por correio são inválidos. Trump deixa explícito que, caso não consiga os 270 votos suficientes no Colégio Eleitoral e tenha que contestar o pleito, conta com a rápida aprovação da juíza conservadora Amy Coney Barrett pelo Senado para assegurar seu triunfo eleitoral. Indicada para ocupar a vaga de Ruth Bader Ginsburg na Suprema Corte, se ela for confirmada, como é previsto, o equilíbrio ideológico do tribunal penderá claramente para o campo conservador. Se Biden vencer em uma eleição acirrada, as cédulas por correio, que demoram a ser contadas, serão fator decisivo para confirmar o resultado. O panorama turbulento, atiçado pelo presidente americano, levou o jornalista Thomas Friedman a fazer, em sua coluna no “New York Times”, um drástico alerta sobre a erosão da democracia americana. “Não posso dizer mais claramente: nossa democracia está em terrível perigo: mais do que desde a Guerra Civil, mais do que depois de Pearl Harbor, mais do que durante a crise dos mísseis cubanos e mais do que no Watergate.” Ou seja, a menos que o vencedor seja incontestável, a baderna eleitoral promovida por Trump deve ser levada a sério.

Baderna eleitoral nos EUA
Transição turbulenta incitada por Trump antevê longas batalhas jurídicas e rede gigantesca de advogados contratada por republicanos para contestar o resultado. Presidente americano, Donald Trump, e o ex-vice-presidente Joe Biden durante o primeiro debate presidencial nesta terça-feira (29), em Cleveland, Ohio Patrick Semansky/AP Diante de 70 milhões de espectadores que dedicaram 90 minutos de seu tempo na ilusão de que assistiriam a um debate eleitoral construtivo, o presidente Donald Trump voltou a atacar a lisura das eleições americanas. Sinalizou que uma transição pacífica só ocorrerá se ele sair vitorioso em novembro e incitou seus partidários a questionarem o processo. Nesta campanha que rompeu com padrões de civilidade, as denúncias de fraude eleitoral partem do próprio presidente dos EUA. Ao contrário de Biden, Trump se negou a comprometer-se a aceitar o resultado eleitoral. Em comícios e entrevistas, ele deslegitima, sem apresentar evidências, a votação por correio — instrumento que se fortaleceu numa eleição duramente afetada pela pandemia do novo coronavírus. Para amparar as denúncias que o presidente faz repetidamente, a campanha republicana começou a montar, há um ano, uma rede gigantesca de advogados para dar conta das batalhas jurídicas que se avizinham no day after eleitoral para contestar a apuração. Uma reportagem publicada esta semana pelo site Politico detalha como funcionará este mutirão, com apoio do Comitê Nacional Republicano, que se concentrará basicamente em 17 estados que estão no foco do presidente. Ambos os partidos se preparam para estender o resultado por dias ou semanas, num imbróglio que fará os americanos sentirem saudades da eleição disputada por George W. Bush e Al Gore, em 2000, que se arrastou por 35 dias. No desastre que se transformou o primeiro debate eleitoral entre os dois candidatos à Casa Branca, o democrata Joe Biden tentou reverter o roteiro caótico estabelecido por Trump. Encorajou eleitores a comparecerem às urnas, em vez de dar crédito às denúncias infundadas proferidas pelo presidente de que os votos por correio são inválidos. Trump deixa explícito que, caso não consiga os 270 votos suficientes no Colégio Eleitoral e tenha que contestar o pleito, conta com a rápida aprovação da juíza conservadora Amy Coney Barrett pelo Senado para assegurar seu triunfo eleitoral. Indicada para ocupar a vaga de Ruth Bader Ginsburg na Suprema Corte, se ela for confirmada, como é previsto, o equilíbrio ideológico do tribunal penderá claramente para o campo conservador. Se Biden vencer em uma eleição acirrada, as cédulas por correio, que demoram a ser contadas, serão fator decisivo para confirmar o resultado. O panorama turbulento, atiçado pelo presidente americano, levou o jornalista Thomas Friedman a fazer, em sua coluna no “New York Times”, um drástico alerta sobre a erosão da democracia americana. “Não posso dizer mais claramente: nossa democracia está em terrível perigo: mais do que desde a Guerra Civil, mais do que depois de Pearl Harbor, mais do que durante a crise dos mísseis cubanos e mais do que no Watergate.” Ou seja, a menos que o vencedor seja incontestável, a baderna eleitoral promovida por Trump deve ser levada a sério.