Ditador de Belarus se curva a Putin

Enfraquecido internamente, Lukashenko recorre à Rússia, obtém empréstimo, mas pagará preço alto por apoio de vizinho que costumava esnobar. Alexander Lukashenko, presidente de Belarus, durante entrevista à imprensa russa no começo de setembro de 2020 Nikolai Petrov/BelTA/Handout via Reuters Sem ter como acalmar a revolta popular que convulsiona a Belarus desde as eleições, o ditador Alexander Lukashenko finalmente pediu arrego ao presidente da Rússia. Obteve, de Vladimir Putin, um empréstimo de US$ 1,5 bilhão para atenuar a crise econômica. A ajuda, contudo, deverá significar um alto preço para o agora enfraquecido todo-poderoso de Minsk, que até recentemente esnobava a influência do homem-forte de Moscou em sua seara. No balneário de Sochi, onde ambos se reuniram por quatro horas, ficou implícito que em troca do apoio político e financeiro, Putin cobrará a fatura. Prevê-se que a integração entre os dois países será mais profunda do que a atual, nos moldes do acordo assinado há 23 anos. Lukashenko resistiu o quanto pôde a uma união fiscal, política e econômica com o vizinho e nunca implementou a fusão. Não basta a Rússia ser o maior investidor de Belarus, arcando com mais de metade do faturamento de seu comércio exterior. Pelo território bielorusso passam um quinto do gás e 25% do petróleo oriundos da Rússia para a Europa. Sua localização serve também como um anteparo entre a Rússia e as tropas da Otan instaladas na União Europeia. Em 26 anos no comando do país, o ditador se valia desta estratégia para jogar com os europeus e escapar da órbita russa. Funcionou até os protestos gigantescos que desataram em agosto na esteira apuração das eleições. De acordo com o regime -- não havia observadores internacionais -- Lukashenko conquistou o sexto mandato com 80% dos votos. Presidente da Belarus visita Vladimir Putin em busca de apoio para se manter no cargo A opositora Svetlana Tijanovskaya foi forçada a refugiar-se na Lituânia, outros líderes opositores foram presos, mas os manifestantes não esmoreceram, apesar da força bruta das tropas do ditador. Debilitado internamente e sem apoio da UE, Lukashenko correu na direção da Rússia, a quem agora se refere como o irmão mais velho. Desdobrou-se em subserviência. “Um amigo está em apuros e digo isso sinceramente.” Nas ruas de Minsk, manifestantes interpretaram, em cartazes, a nova jogada do ditador: “Não vamos deixar que ele venda o país”. Putin deixou nas entrelinhas o apoio a uma reforma da Constituição e a novas eleições em Belarus. Melhor apostar em alguém que lhe inspire credibilidade. Aliado de ditadores como o sírio Bashar al-Assad, o venezuelano Nicolás Maduro, o norte-coreano Kim Jong-un e de regimes autocráticos como o do Irã, o presidente russo sinalizou que, embora não confie em Lukashenko, garantirá uma sobrevida a ele.

Ditador de Belarus se curva a Putin
Enfraquecido internamente, Lukashenko recorre à Rússia, obtém empréstimo, mas pagará preço alto por apoio de vizinho que costumava esnobar. Alexander Lukashenko, presidente de Belarus, durante entrevista à imprensa russa no começo de setembro de 2020 Nikolai Petrov/BelTA/Handout via Reuters Sem ter como acalmar a revolta popular que convulsiona a Belarus desde as eleições, o ditador Alexander Lukashenko finalmente pediu arrego ao presidente da Rússia. Obteve, de Vladimir Putin, um empréstimo de US$ 1,5 bilhão para atenuar a crise econômica. A ajuda, contudo, deverá significar um alto preço para o agora enfraquecido todo-poderoso de Minsk, que até recentemente esnobava a influência do homem-forte de Moscou em sua seara. No balneário de Sochi, onde ambos se reuniram por quatro horas, ficou implícito que em troca do apoio político e financeiro, Putin cobrará a fatura. Prevê-se que a integração entre os dois países será mais profunda do que a atual, nos moldes do acordo assinado há 23 anos. Lukashenko resistiu o quanto pôde a uma união fiscal, política e econômica com o vizinho e nunca implementou a fusão. Não basta a Rússia ser o maior investidor de Belarus, arcando com mais de metade do faturamento de seu comércio exterior. Pelo território bielorusso passam um quinto do gás e 25% do petróleo oriundos da Rússia para a Europa. Sua localização serve também como um anteparo entre a Rússia e as tropas da Otan instaladas na União Europeia. Em 26 anos no comando do país, o ditador se valia desta estratégia para jogar com os europeus e escapar da órbita russa. Funcionou até os protestos gigantescos que desataram em agosto na esteira apuração das eleições. De acordo com o regime -- não havia observadores internacionais -- Lukashenko conquistou o sexto mandato com 80% dos votos. Presidente da Belarus visita Vladimir Putin em busca de apoio para se manter no cargo A opositora Svetlana Tijanovskaya foi forçada a refugiar-se na Lituânia, outros líderes opositores foram presos, mas os manifestantes não esmoreceram, apesar da força bruta das tropas do ditador. Debilitado internamente e sem apoio da UE, Lukashenko correu na direção da Rússia, a quem agora se refere como o irmão mais velho. Desdobrou-se em subserviência. “Um amigo está em apuros e digo isso sinceramente.” Nas ruas de Minsk, manifestantes interpretaram, em cartazes, a nova jogada do ditador: “Não vamos deixar que ele venda o país”. Putin deixou nas entrelinhas o apoio a uma reforma da Constituição e a novas eleições em Belarus. Melhor apostar em alguém que lhe inspire credibilidade. Aliado de ditadores como o sírio Bashar al-Assad, o venezuelano Nicolás Maduro, o norte-coreano Kim Jong-un e de regimes autocráticos como o do Irã, o presidente russo sinalizou que, embora não confie em Lukashenko, garantirá uma sobrevida a ele.